Universo indistinto

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Imagem: James R. Eads

 

Universo indistinto

O vento vem impuro
Na cidade acabrunhada
O céu indistinto
E a noite calada

Permanece no tempo
O correr das rodas
Os rios que choram suas águas
Jorram férteis desde a nascente

Rolam as pedras
Lavam as terras
Salvam os homens
De sua própria fome

Quem nos dera fosse apenas
O ronco vazio do estomago
Mas fome que não se sacia
Associa ao que nos corrompe
Impotente pela palavra perdida
Desmancha em cadência polida
O conta gotas da alma

Incinera os papéis do passado
Mas o feito ou desfeito não se apaga
Contudo o perdão a tudo acalenta
Portanto contenta
Alegra e acalma a tormenta
Se a sorrir, não se criam muros

Despacha em paz os murmúrios
Destes morros de vidro
E seus vastos vácuos inquietos

Esteja calado
Para e observa o teto
Em autismo compadecido
Ao silêncio ouve o ruído
A porta rangeu sua voz
Trouxe a nós
O som que ecoa no nada

Eis coração, entoa canção
Enfurece aos gritos
Eis cabeça, da razão não esqueça
Ou leva no redemoinho

Vê naquela gruta úmida
O canto onde habita a árvore
Que não pode ser podada?
Abaixo dela
Um jovem velho, grande pequeno
És nosso
Sobe os degraus do destino
Que a ti mesmo escolhe
No topo brada
És gigante, és teu

Nada nos tira a grandeza
Nada nos tira a inferioridade
Diante da eternidade infinita do espaço
Permanece grão de areia
Na imensidão da praia

Mas a linha que segue é teu traço
De coração, corpo e alma
Lavada ou coberta
Em essência faz-se sempre divina

Termino de olhos cansados
Cego do que não é meu
Nesta estrada empoeirada
Correndo a ver o sol nascer.

Autor: O que de Souza

Eu escrevo

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Imagem: Autor desconhecido

 

Eu escrevo por sentir demais.
Eu escrevo para assim transparecer
Aquilo que sinto.
Escrevo por amor, tristeza.
Escrevo, pois a cada dia aprendo
Assim apreendo o que reconheci
E o novo que venho a conhecer
Na poesia planto minhas sementes
Semeando o solo de minha vida
Essa vida turva e cheia de curvas
Alegrias e desventuras
Que puxam amores e tristezas
Para dentro do meu coração
Autor: O que de Souza

 

Almas anarquistas

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Foto: autor desconhecido.

 

Sobre a face a apreensão
Sobre os olhos o peso do tempo
Caído em sonho atravessando relento
Mais um detento do mundo
Oriunda face orientada
Em meio à bruma densa do alvorecer
Noites delirantes de escala alucinógena
O eco o copo a fumaça a loucura
Como se tudo estivesse se partindo e girando
Simultaneamente
Como uma garrafa lançada ao ar
Que voa e gira antes de quebrar no asfalto
E meio estas luzes de platina
Almas anarquistas perambulam
Entre as sombras de si mesmas
Como se desorientados se orientassem
Por sua lei de liberdade
Aprisionada as próprias falhas
E buscas pessoais
Anseio tempos mais brandos
Tuneis mais bem iluminados
A lembrança do por do sol na janela
E olhares que se reencontram
Como almas em atrito
A nudez do toque sensível
Na maciez das pétalas
E o aroma do orvalho matinal
Sobre a mesa a caneta, o papel,  o poema
A caneca de café e o tabaco
Sorrisos de satisfação
E basta um olhar
Para enxergar
A eternidade assegurada no horizonte.
Autor: O que de Souza 

O ser humano

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Imagem: Kurt C Burmann

 

Não somos o quadro de um artista fingido
Nem a fotografia pálida na parede
Ou a imagem virtual estampada
Não somos uma roupa
Ou toda a falácia superficial
Está no semblante
Mas não é apenas face
Está nos gestos
Mas não é apenas corpo
Não somos o que diz a palavra do outro
Nenhum rótulo ou intimação
Não somos o sonho nem a fantasia
Nem a maledicência desta epidemia
De ser humano sem ser humanista
Somos o que é visceral
A essência fundamental do espírito
Somos a verdade de nós mesmos
Interna ao cerne, âmago da razão
Apesar das visões contorcidas e distorcidas
De toda alienação que sofremos
E a conspícua desgraça da poluição
Temos ainda a semelhança
De um entendimento maior que o material
E o que há de bom no meu povo
Povo simples, do tipo que é gente
E se entende
Está nos profundos olhos
E pequenos gestos generosos
Muito mais que imagens
Muito além de poses e estilos
Nas entrelinhas singelas
Vê-se a bruta flor do ser
E é muito maior que a dor
Que sofre o coração.
Autor: O que de Souza

O mundo

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Imagem: Catherine Nelson

 

Eu vi o mundo
De ponta cabeça
Construindo prédios
Derrubando gente
Derrubando verde
Derrubando vida
Eu via a construção
Que se denomina
O futuro
O resto de silêncio
E vagueza
Reinando o íntimo
Da ilusão
O sol acalenta
Mas o ar dos motores
Tapa os pulmões
Percebes ir e vir
O mundo percorrer os dias
Entre a fuligem e poeira
Um todo tão claro
Tão escasso
Que seca e se cala
Mas ainda é vivo
No sistematização dos seres
A essência cristaliza
Mas não extingue
As vezes um coração padece
Mas nunca irá morrer.
Autor: O que de Souza

Samba, sangue e suor

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Imagem: Marlina Vera

 

Calos nos dedos
Dos pés
Entre passos pequenos
Permutam
Escutam a dança
Absorvem a música
Retratam e relatam o país
Aprendiz
Do malandro boêmio
Sapateam
Batucam
Na caixa de fósforo
Aprendendo no bar
O esquema do jogo
Que encaixam
E na viola
O acorde que acorda
Dos dedos floridos
Os sentidos
Ao peito que agita
Simples ruído fundido
Escorrendo sangue e suor
Das veias do ardor
No calor que passou
Entra na pista
Batendo cachola
E demonstra sua dança
Louco, pilantra, tunante
Brasileiro nato
Original
Inveterado
Autor: O que de Souza

Meu vinho

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Imagem: Jacek Yerka

 

Imprimo a desistência
Na demência sólida
Paredes de pedra
Cobrem a luz do sol
Mas do infinito
Vem flamejante
Uma espada cortante
De poder celeste
Dividindo as rochas negras
Cobertas de limo
E no ínfimo
Dos azuis do céu
A consistência viva
De um mago sublime
Voando em um
Barco feito de folhas
Rugindo aos ventos
O seu brado ressonante
Que se dissipa
E reverbera
Por entre os pólos do universo
Autor: O que de Souza